A cruz ou a espada?
(Camila Alves)
Era uma noite calma após um dia conturbado... Fazia frio.
Eu mirava meus olhos no espelho como costumava fazer, buscando de mim mesma algo que me fizesse sentir melhor, buscando alguma resposta...
Eu estava perdida nos meus pensamentos quando de repente algo quebra o barulho do silêncio. Despertei, mas logo voltei à última reflexão... E novamente algo me tira a concentração...
Desta vez já nem lembrava mais em que estava pensando, então resolvi apurar os ouvidos e ver o que estava acontecendo...
Fui me guiando pelo som agudo, como de um soluçar...aproximei-me do meu quarto, era da rua que vinha aquele barulho...Debrucei-me na janela e avistei uma menina sentada na calçada.
Agarrada à suas pernas, olhando para os próprios pés a menina tentava conter o choro.
Mas a dor daquele coração parecia ser tão grande que seu esforço para contê-lo de nada valia... O choro saia a conta-gotas, em pequenos soluços e poucas lágrimas. Ela tentava ser forte.
A menina então começou a se balançar... Era como se estive no colo de sua mãe a acalentá-la...
Pouco a pouco ela parecia se acalmar. Suportava a dor.
Já não ouvia mais o soluçar da menina, mas estava hipnotizada pela melancolia da cena presenciada.
Eis que um bater de porta me tira do transe. Vinha do outro lado da rua.
Uma discussão parecia se iniciar. Não conseguia distinguir as falas, não compreendi os motivos, mas a alteração dos dois envolvidos era notável.
Uma luz se acendeu, não conseguia ver nada além das silhuetas a gesticular furiosamente.
Esforçava-me para compreender a situação, mas foi em vão, uma jovem mulher abre o portão da casa e sai em disparada.
Acompanhei os passos largos da moça, até que quando já parecia estar um pouco distante do local da briga, ela diminuiu o ritmo... Como se já não tivesse medo, nem pressa... Ou talvez houvesse se arrependido, e seus passos lentos a faziam ficar menos distante do que lhe parecia ser certo, decidindo se voltava ou não. Mas agora era apenas a rua e ela.
Até que um determinado momento meus olhos já não eram mais capazes de acompanhá-la... Ela seguiu seu caminho.
Voltei-me para o portão que ficara entreaberto, esperei alguns minutos para ver se algo mais aconteceria... Mas apenas a luz se apagou. E como um estalo, lembrei-me da menina na calçada.
Olhei para o outro lado da rua e ela já não estava mais ali... Já era noite e fazia frio, não era mesmo para ela estar ali.
Continuei debruçada na janela pensando na menina e na moça...
Pobre menina, ainda uma criança... Crianças às vezes fazem tempestade em copo d’água...mas a dela era diferente, ela parecia conter as chuvas dentro de si, amarrar os ventos e abafar os trovões...bem diferente do normal.
E a jovem mulher furiosa?...Adultos às vezes crescem somente no tamanho, também fazem tempestade em copo d’água...mas ela também diferia bastante do normal... Como depois de muitos dias lindos e ensolarados viesse a inevitável temporada de seca. Seca que durou muito mais do que deveria... Já não havia mais harmonia dentro dela, e bastava somente o ciclo da sua natureza se completar... Sol, seca e temporal.
Como se a tempestade controlada pela menininha já não pudesse mais ser contida.
Ações desmedidas geram reações sem medidas.
O que teremos depois da guerra, a paz ou o pranto?
Não consegui compreender se suas chuvas trouxeram vida, ou morte, ou os dois... Se no final da sua guerra, contabilizando vivos, mortos e feridos, o saldo foi negativo ou positivo.
Já a menininha...Também não sei se seu silêncio gerou aprendizado de si mesma ou solidão e vazio. Se proporcionou o alívio ou o acumulo da dor.
O próprio tolo, estando calado, é tido por sábio.
Seria ela tola ou sábia?
Bom... elas fizeram as suas escolhas.
Um raio de sol me roubou os pensamentos...
Percebi que já estava amanhecendo, o frio deu lugar ao aconchegante calor do sol temperado com a brisa leve que corria...
A cada segundo o sol ficava mais forte e eu permanecia ali, debruçada na janela...
Até que foi tamanho o brilho do sol que ofuscou minha vista, fechei os olhos, contraí bem as pálpebras a ponto de ver um clarão com os olhos fechados.
Respirei fundo e abri os olhos devagar...
Após o desembaçar da visão, acordei da minha viagem...
Ali estava eu, mirando meus olhos no espelho...Debruçara nas janelas da minha alma...Tentando decidir entre a cruz da pequena menina e a espada da jovem mulher que haviam em mim...
Não gostei nem um pouco dos dois extremos...escolhas difíceis.
Eis que meu reflexo me sorriu. Eu sorri.
Achei a resposta que procurava.
Decidi: Não quero nem a cruz, nem a espada, nem um lado, nem o outro.
Saí da frente do espelho, peguei minhas chaves e fui dar uma voltinha pela rua... Para quem sabe, encontrar o meio termo.
***
♪ Quando o sol bater
Na janela do teu quarto,
Lembra e vê
Que o caminho é um só. ♫
***
sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
A cruz ou a espada?
Pegadas deixadas por
Camila Alves
às
15:33
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